Lançado em 4 de agosto, o relatório Rupturas e oportunidades: propostas para que a América Latina e o Caribe prosperem na nova era geopolítica foi apresentado em evento de alto nível na sede da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL), em Santiago do Chile. Elaborado por 13 especialistas, o documento afirma que a América Latina e o Caribe possuem ativos estratégicos para impulsionar seu desenvolvimento, mas destaca que transformar esse potencial em oportunidades exige estratégias claras, maior cooperação e governança eficaz.
Convocada no final de 2024 pelo secretário-executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs, a Comissão sobre Geopolítica, Globalização e Desenvolvimento para a América Latina e o Caribe, foi copresidida pela ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, e pelo ex-presidente da Colômbia, Iván Duque, reunindo 13 personalidades e vozes influentes da América Latina e do Caribe, da América do Norte, da África, da Ásia e da Europa. Os integrantes participaram a título individual e de forma honorária, e o trabalho da Comissão contou com o apoio do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
A mensagem central do relatório é que o mundo mudou e que a América Latina e o Caribe têm os recursos necessários para navegar com sucesso nesta nova era geopolítica. O documento identificou oito rupturas que estão ocorrendo simultaneamente em nível mundial:
- Reconfiguração da globalização: A interdependência econômica deixou de ser celebrada e vista como um fator de estabilidade e eficiência. Passou a ser considerada um fator de vulnerabilidade e utilizada como instrumento de poder e até mesmo de coerção.
- Erosão do multilateralismo e reconfiguração da governança global: A ordem multilateral pós-guerra enfraquece-se e surge uma governança mais fragmentada, com alianças seletivas e redes que competem entre si.
- Da hegemonia unipolar à competição multipolar: O mundo está passando de um sistema unipolar, dominado pelos Estados Unidos, para uma redistribuição progressiva do poder e para um sistema de competição multipolar assimétrica.
- Reconfiguração do poder brando (soft power): O poder brando ganha peso na presença global dos Estados. O nível de poder brando dos Estados Unidos diminui, enquanto o da China está em ascensão.
- Retrocesso da democracia e aumento da polarização política: O mundo atravessa um processo de erosão democrática, acompanhado por uma crescente polarização política. A proporção de países classificados como democracias liberais diminui.
- Desinformação e crise da verdade na era da inteligência artificial (IA): A desinformação, a manipulação algorítmica e o uso mal-intencionado da IA estão minando a confiança nas instituições, alimentando a polarização e reduzindo a legitimidade democrática.
- Retrocesso nos direitos das mulheres, na igualdade de gênero e na inclusão: Os avanços alcançados nessas áreas nas últimas décadas enfrentam questionamentos cada vez maiores e, em alguns contextos, um retrocesso.
- O fim do consenso global sobre o clima: As medidas relacionadas ao clima estão se tornando cada vez mais subordinadas a estratégias industriais, a preocupações com a segurança energética e à competição geopolítica. Em alguns setores, o consenso científico é posto em dúvida.
Diante desse cenário mundial, a Comissão argumenta que a região conta com um conjunto de ativos que se valorizaram no atual contexto geopolítico. Entre eles estão sua abundante dotação de recursos naturais; suas capacidades produtivas, humanas e financeiras; o grande tamanho de seu mercado; sua condição de região livre de armas nucleares e de guerras entre Estados; e seus ativos intangíveis, como o poder brando (soft power). Esses ativos oferecem à região uma grande oportunidade para impulsionar seu desenvolvimento e aumentar sua projeção e influência internacional.
O relatório afirma, no entanto, que isso não acontecerá espontaneamente: são necessárias estratégias claras, instituições fortes e governança eficaz. Nessa linha, propõe dez recomendações concretas, organizadas em três eixos:
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Aproveitar o momento mobilizando ativos estratégicos.
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Fortalecer a governança, as instituições e a democracia.
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Impulsionar a capacidade de atuação internacional e regional.
Entre os dados que sustentam seu diagnóstico, o relatório destaca que a América Latina e o Caribe concentram 46% das reservas mundiais de lítio, 35% das de cobre, 28% das de grafite e 23% das de terras raras; são a principal região exportadora líquida de alimentos do mundo; abrigam quase metade da biodiversidade terrestre do planeta e um terço de seus recursos de água doce; e possuem a matriz elétrica mais limpa do mundo.
O relatório acrescenta que o mercado regional, com mais de 660 milhões de pessoas, poderia ser um motor de diversificação produtiva, embora hoje o comércio intrarregional represente apenas 14% das exportações totais da região, uma das taxas mais baixas do mundo.
“O título deste relatório sintetiza sua mensagem principal: as rupturas sugerem que o mundo mudou, e isso também levanta a necessidade de uma mudança de paradigma para aproveitar as oportunidades com estratégias inovadoras de desenvolvimento e de inserção internacional. As dez propostas apresentadas pelo relatório constituem um roteiro concreto para mobilizar os ativos em benefício do desenvolvimento e da projeção internacional dos países da região”, destacou o secretário-executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs.
O relatório afirma que nenhuma de suas recomendações pode ser colocada em prática sem uma governança eficaz e instituições sólidas. O documento também apela ao fortalecimento da capacidade fiscal do Estado e para que o combate ao crime organizado seja tratado como uma prioridade da governança regional, e não apenas como uma questão de segurança.
“Não contamos apenas com riquezas no subsolo e na superfície, mas também em nosso povo e em nossas indústrias. A América Latina e o Caribe possuem capacidades produtivas, humanas e financeiras que merecem ser valorizadas em sua justa dimensão e em seu grande potencial. Temos também influência política, embora às vezes nos custe acreditar nisso e compreendê-lo. Nossa diversidade, nosso patrimônio cultural, a influência e a visibilidade que a região tem no mundo nos conferem uma influência que devemos saber aproveitar”, afirmou a ex-presidente do Chile e copresidente da Comissão, Michelle Bachelet.
O relatório destaca que a cooperação regional pode ser uma ferramenta poderosa para transformar ativos em desenvolvimento e que ela não exige unanimidade. Diante do quadro de alta polarização política existente na região, recomenda-se priorizar a cooperação funcional entre países interessados em avançar em temas específicos, com objetivos, prazos e responsabilidades claras.
O relatório também destaca que ampliar a capacidade de influência internacional da região requer evitar alinhamentos rígidos diante da rivalidade entre a China e os Estados Unidos e, em vez disso, construir coalizões de geometria variável com parceiros que compartilhem interesses específicos, além de desenvolver novas capacidades de análise geopolítica nos âmbitos governamental, empresarial e acadêmico.
“O desafio é desenvolver a capacidade da região de diversificar suas alianças e defender seus interesses estratégicos. Uma região com capacidade de ação coletiva tem maiores possibilidades de manter relações benéficas com as principais potências mundiais, sem se subordinar a nenhuma delas. Nossa proposta não é contra nenhum país, nem a favor de nenhum bloco. Nossa proposta é criar espaços próprios para agir e decidir”, afirmou o ex-presidente da Colômbia e copresidente da Comissão, Iván Duque.
Para saber mais, acesse o relatório final da Comissão de Alto Nível da CEPAL (em inglês e espanhol) e siga @cepal_onu e @eclac_un nas redes sociais.
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- Unidade de Informação Pública da CEPAL: [email protected]
Fonte: brasil.un.org

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